domingo, 15 de fevereiro de 2009

A Bolha.

Estava conversando com um amigo e me dei conta de que eu devia ter algum tipo de fobia social.
Como eu nunca tinha percebido isso antes me assusta.
Eu lembro que eu sempre me sentia como se as pessoas fossem envolvidas por uma espécie de bolha, uma esfera.
Essa bolha variava de tamanho de acordo com a importância que eu acreditava que essas pessoas tinham.
Ou, o quanto essas pessoas eram tão melhores do que eu (auto-estima nas alturas...).
E essa bolha me empurrava pra trás. Me repelia de perto das pessoas.
Essa bolha me prensava contra as paredes.
Essa bolha me sufocava.
Tudo que eu enxergava era turvo, borrado, iluminado demais, perto demais, assustador demais.
Eu buscava me afastar das pessoas numa tentativa de escapar da bolha delas.
Elas me intimidavam. Sem fazer nada além de dividirem o mesmo espaço físico.
Até que um dia aconteceu um milagre. Só posso chamar assim.
Sem fazer absolutamente nada diferente do que eu fazia nos outros dias. Sem sequer pensar a respeito. Sem fazer realmente nada, eu enxerguei o mundo como ele realmente era (ou, no mínimo, como eu atualmente acho que ele realmente é).
Era como se eu estivesse assistindo minha vida de fora. Como se aquelas pessoas não me afetavam, não me geravam sentimentos.
Eu simplesmente percebi que não existia bolha alguma. Que ninguém me empurrava contra a parede. Que nada daquelas distorções eram reais.
Era como se eu tivesse nascido míope. Vivido toda minha vida míope. E, do nada, alguém tivesse me colocado um óculos.
Admito que não perceber que eu era "míope" é uma coisa que realmente me assusta. Que outros "aleijamentos" não terei que não percebo?
Sem enxergar as coisas distorcidas, sem enxergar com sentimento, meramente ver "friamente", me fez tão bem.
Como mágica eu não me achava mais o ser mais inferior do mundo que obviamente não seria visto por aquelas pessoas que estavam no alto dos mais altos pedestais.
Como mágica eu não me sentia mal perto dos outros.
Como mágica eu conseguia socializar.
Socializei com moderação.
Então fui percebendo que não precisava tanta moderação.
Quando vi eu estava socializando com todo mundo, como se eu nunca tivesse enxergado bolhas nas pessoas.
Tenho que confessar que acredito que nunca deixarei de me admirar com a intensa capacidade que os seres humanos possuem de criar obstáculos para si próprios.
Águias são exímias em voar, baleias são exímias em nadar, tubarões são exímios em matar... e os seres humanos são exímios em se sabotar.




Postado por Ricardo Ceratti.