terça-feira, 17 de novembro de 2009

Travesseiro.

Hoje não dormirei abraçado no travesseiro.
Acostumado com tua ausência que tanto me dói, encontrei neste objeto inanimado o conforto que tanto tive sede por encontrar em teus braços.
Hoje sem travesseiro!
Não dormirei abraçado nesta representação quase infantil minha da tua pessoa.
Hoje não!
Sem ti. Sem te ter mais, sem poder te dizer ‘minha’.
Nem o travesseiro quero mais.
Aquele que tanto me fez companhia, que tanto serviu para ocupar teu lugar, enquanto eu ficava ansioso para que tu tomasses logo o lugar que é teu por direito!
Não, não quero o travesseiro-tu hoje!
Hoje durmo sozinho. Tantas noites já foram assim, tantas voltarão a ser assim!
Sem tua companhia, real ou imaginária.
Não quero mais, como uma criança com um bico que imagina o seio da mãe, fingir que aquele objeto, tão sem valor ou personalidade, na realidade é a tua pessoa, e me acompanha nessas torturantes horas enquanto me reviro na cama, o que eu chamo de “dormir”.
Não, hoje eu durmo sozinho! Hoje durmo na cama do solteiro!
Aquela cama, tão acompanhada quanto antes, quando tu a ela pertencias.
Tão vazia de significado.
Tão igual de calor e carne.
Tão dolorida.
Tão acinzentada.
Esta cama já se cansou de iludir-me.
Esta cama agora me diz “dormes numa cama de solteiro agora!”.
Esta cama me diz “percebes a diferença?”.
Eu teimo em brigar com esta cama, “não sei do que estás falando!”.
A cama, sempre sábia, sempre com razão, “não percebes, então?”.
Ora, cama maldita! Do que te pões a falar?
“Percebes que nada mudou? Percebes que ao teu lado não há ninguém? Como nunca teve?”
Sábia, maldita, cama.
Ela tem razão.
Nada mudou.
Adeus travesseiro. Cansei do bico.
Adeus, companheiro ilusório.
Nunca fostes quem eu queria.
Estás liberado de tentar sê-lo.
Travesseiro... vá em paz, para o mesmo caminho seguido pela dona da imagem que te faço assumir.
Meu companheiro. Meu substituto tão insuficiente.
Não tens mais lugar em minha cama.
Travesseiro.
Adeus.




Postado por Ricardo Ceratti.