quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Imortalidade

Estive lendo e assistido documentários falando sobre como os avanços da ciência nos farão imortais, ou seja, não morreremos mais de causas naturais.
Confesso que isto me deu muito o que pensar.
Atualmente vivemos numa ambivalência em relação ao tempo.
Por um lado "tempo é dinheiro" e não deve, de maneira alguma, ser "desperdiçado". Não podemos curtir um pôr-do-sol, a natureza, os amigos, os amores, uma boa e bem saboreada refeição, não podemos curtir um minuto de silêncio, um minuto solitário, um minuto para si. Quer dizer... podemos, mas seja lá o que dedirmos fazer deverá ser feito às pressas, sem o "luxo" de curtir apropriadamente ou de ficar algum tempo com aquele "gostinho". Não. Mas se termina algo e já surge uma inquietação para fazermos outra coisa. Qualquer coisa. Como um esfomeado perante um banquete, devoramos tudo com avidez. Comemos com ansiedade (ou comemos A ansiedade?), sem mastigar ou diferenciar doce do salgado.
Por outro lado acredito que a espécie humana nunca foi tão entediado quanto atualmente. Passamos horas na frente da televisão ou do computador sem fazer nada, criamos formas e mais formas de passar o tempo, olhamos muito para as paredes, reclamamos do tédio sem nos darmos conta de que ele não passa de uma criação nossa, que só existe por assim querermos. Reclamamos mas não fazemos nada a respeito. Não fazemos nossas obrigações, não fazemos nossas paixões, não fazemos algo interessante, não lemos um livro que seja, não fazemos algo divertido como sair com os amigos. Deixamos para depois.
Deixamos tudo para depois. Temos até uma palavra para isso: Procrastinação. Estamos entediados e faremos algo a respeito... mas depois. No presente estamos muito ocupados ficando entediados.
Não faz sentido como tais extremos podem coexistir. Agora, sejamos imortais então: Vamos esquecer a pressa e permitir-nos saborear pacienciosamente a vida? Ou vamos acabar jogando ainda mais tempo fora? Nosso prazer de viver será maior ou vamos acabar corroídos pelo tédio?
Obviamente que estas indagações só fazem sentido numa realidade totalmente diferente da atual. Uma realidade onde poderemos escolher. Mas escolher de verdade! Não estou falando de uma escolha ilusória como o tipo que temos atualmente. Poderemos aproveitar nossa vida eterno, ou o custo de vida subirá de forma a continuarmos sendo explorados feito engrenagens? E se pudermos aproveitá-la, será isso não vai acabar assustando mais as pessoas? E a mais pessoas?
Há pouco tempo escrevi sobre termos de abrir mão de muitos sonhos para que possamos realizar poucos. E se isto não for mais necessário? Uma pessoa poderá 'ser' tudo que sonha até enjoar? E se de enjoar ser? Acabaremos nos matando de tédio pois, após vivermos 10 mil anos, como disse Raul Seixas, "não há nada nesse mundo que eu não saiba demais"? Ou será que, tendo todos tempo do mundo, acabaremos tendo tempo para todo mundo?
Se atualmente jogamos tempo fora sabendo de nossa (curta) finitude, não estamos, de certa forma, comentendo suicídio?




Postado por Ricardo Ceratti.