quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Virtualidade

Estive observando como existem diferenças gritantes entre como é uma pessoa na vida real, e como esta mesma pessoa é no espaço virtual.
Na internet as pessoas são, pelo que pude observar, menos tímidas, mais ousadas, engajadas. Defendem suas causas, discutem, brigam, criticam, ironizam, tudo mais. Se impõem mais, se expõem mais.
Não quero, neste momento, entrar no mérito do quanto estas ações são providas ou desprovidas de valor ou de interesse genuíno.
Vejo casos até extremos: Pessoas que brigam online com furor, de chegar ao máximo do rompimento virtual - o ato de remover a pessoa de sua lista, de seus "amigos" -, se relacionarem normalmente quando se encontram. Assim como pessoas que sequer se olham ou se cumprimentam pessoalmente, acham o fim do mundo serem excluídas da amizade virtual.
Existe uma cisão com sutis, porém presentes, notas psicóticas destas "duas vidas".
Entendo como o conforto da distância e impessoalidade facilitem decisões e atitudes incompatíveis com a vida "cara-a-cara", mas vejo neste movimento uma banalização de caráter doentio, um movimento que, desprovido de significado, não gera nada por si só.
Por outro lado, vejo nesta mesma facilitação um espaço rico para o crescimento.
Ora, as pulsões e os desejos existem em ambas vidas. Porém o que se poda e é podado em uma, é extrapolado em outra. Quão mais saudável é a aproximação destes dois extremos?
Podemos aprender com nossas experiências virtuais a aderirmos atitudes mais autênticas em nossas vidas reais. A começarmos a lutar mais, em nosso cotidiano, pelo que acreditamos, pelo que achamos certo, pelo que pensamos e sentimos.




Postado por Ricardo Ceratti.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ajudar.

Estava chegando num mercadinho perto de casa e sou abordado por uma guriezinha duns quatro anos.
Me pediu se eu compraria pão e leite.
Acostumado com pedintes, mendigos, drogados e flanelinhas, pus um "não" na ponta da língua.
Mas na hora de verbalizá-lo refleti: Ela não está me pedindo dinheiro e sim comida. Não me chamou de mano. Não deixou implícito que ia riscar meu carro ou que minha integridade física estaria em jogo. Não chegou com bafo de cachaça nem de loló. Não tentou intimidar. Não contou uma histórinha, nem dramatizou a situação (que eu sei que é dramática em boa parte das vezes). Não agiu como se fosse minha obrigação dar alguma coisa para ela. Não pediu isso em troca de cuidados imaginários de alguma propriedade minha. Não pediu dizendo que ia comprar comida, ou admitindo que ia comprar drogas.
Só pediu. Pediu com educação. Com aquela educação que não precisa de dinheiro ou de escola para ter. Com respeito. Nem se colocando como inferior, nem como superior. Pediu como igual que é.
Eu disse que compraria uns pães para ela e que me esperasse pois eu ia demorar um pouco, pois tinha minhas compras a fazer.
Me preocupei dela estar ali sozinha, mas me falou que estava com a mãe. Sua mãe não estava jogada na sarjeta, não estava pedindo esmola, não estava sob efeito de drogas, não estava roubando, nem nada. Sua mãe estava trabalhando de juntar coisas para reciclagem, ou, popularmente, era papeleira.
Dei pães, mortadela e bergamotas numa quantidade que sabia que elas duas matariam a fome pelo menos até a próxima noite (se não mais).
E então me dei conta. Não chegou a me custar 3R$. TRÊS REAIS!
Sério, sabendo comprar dá para conseguir alimentar-se com muito pouco dinheiro.
As frutas em dia de feira (no caso, hoje), eram quase de graça.
Comprei coisa para me alimentar durante a semana inteira E as compras para a guriezinha e sua mãe e o total me custou em torno de 15R$.
Agora pense. Quantas vezes se dá esmola em semáforos, para pedintes nas calçadas, parques, para os flanelinhas? Quanto se dá?
Muitas vezes damos quantidades realmente próximas do quanto gastei para ajudá-las.
E qual a utilidade disso? Todos sabemos para onde vai esse dinheiro.
Faça seu dinheiro e sua ação valer. Dê alimento para ajudar a pessoa, mas não dê este coringa que a qualquer fim pode ser utilizado.




Postado por Ricardo Ceratti (com seu estoque de frutas, legumes e verduras).

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Convulsões na sociedade.

Ao assistir este vídeo (http://vimeo.com/27659191) fui obrigado a falar algumas coisas:

O que, ao meu ver acontece?
A mera existência de modos de vida diferente, que podem dar certo e deixar a pessoa realizada, é em si uma ameaça para a estrutura atual em que nos inserimos (estudar, trabalhar, ser explorado, comprar... ou não estudar, trabalhar mais, ser infinitamente mais explorado, e comprar).
Não existe problema algum que alguém saia deste modo de existência, desde que sejam removidos da sociedade fisica ou psicologicamente. Mendigos não são problema, pois ninguém vai deixar de ser explorado na sua força de trabalho para consumir bastante para ser um mendigo. E os tão chamados "loucos" não são problema também, pois são removidos da sociedade através de clínicas, hospícios ou doses debilitantes de remédios. Bandidagem de baixo nível também não se constitui numa ameaça séria, uma vez que influencia uma quantidade muito pequena de membros produtivos da sociedade a buscarem esta forma de vida, se comparado com o imenso ganho social que existe em sua existência, que é gerar medo (e é o medo que nos leva a nos mantermos nesse status quo, a querermos um governo, uma polícia, a pagarmos segurança privada, a comprarmos muitas coisas para nos distrairem da realidade em nossos lares ou "gadgets").
O problema se dá quando vemos pessoas sobreviverem de fazer o que gostam, sem enlouquecerem, sem viverem de uma forma (percebida pelos mesmos como) miserável, de não precisarem entrar no ciclo exploração/consumo.
Já pensou que má influência? Já pensou se todo mundo decide fazer o que gosta e comprar só o que precisa? Se todo mundo achar a idéia bacana e passar a viver assim.
Já pensou?
A sociedade, estruturada da forma em que se encontra atualmente, simplesmente desmorona.




Postado por Ricardo Ceratti.

domingo, 24 de julho de 2011

Refilmagem

Estava conversando com uma amiga sobre o que são os filmes hoje em dia.
Particularmente, sobre refilmagens.
Claro que para tudo existem exceções, mas de maneira geral me parece que hoje em dia as refilmagens se interessam apenas em efeitos especiais, muito chamariz para os olhos, deixando de lado muita coisa importante dos títulos originais, muitos valores e sutilezas, simplesmente para se adaptar à desgostosa atualidade.
O que é um filme clássico?
No geral um sujeito com muito coração, muito gosto pelo que faz, e pouco dinheiro, se esforça para conseguir colaboração necessária para criar um filme no qual coloca o máximo de sua alma possível.
E as refilmagens?
Um sujeito com muito dinheiro nas mãos, nada de criatividade, nada de envolvimento com a história, contrata uns atorzinhos da moda para fazer a tal da refilmagens, em lugares bonitos, com roupas, casas, acessórios bonitos, com o único propósito de conseguir mais dinheiro.
Para conseguir tal proeza, a história passa por uns "retoques", de forma que se adapte à atualidade e ao que a maioria das pessoas gosta, se interessa por ver.
Então temos o problema que a maioria das pessoas tem uma visível tendência para a ignorância e futilidade.
Logo, o filme acaba sendo uma bela nivelada por baixo.
Mas isso não é problema, desde que consiga muita gente para assisti-lo.
Essas pessoas, com quem a refilmagem dialoga, não vai ter interesse em conhecer o original. E se conhecer, não vai gostar.
O filme original não "fala" com estas pessoas. Não fala sua língua. Não é algo com que possam se identificar, tãopouco algo com que desejem sonhar.
O filme original passa a ser uma relíquia de outra era. É um computador de uma sala inteira, é um instrumento indígena, é um revólver de curto alcance e pouca precisão.
É, enfim, uma peça de museu, sem utilidade.
Uma obra de arte para jamais ser compreendida.
Pois isto não ocorre apenas com filmes. É um mero exemplo para ilustrar onde quero chegar.
Esta é a nossa realidade.
A sociedade do consumo. Da produção em massa. Da valorização do status e das aparências. Da "mesmificação". Da falta de profundidade.
Um mundo onde não se vê e certamente pouco se valoriza quem cria algo por achar bom, cria algo para colocar sua alma, cria um pilar a ser deixado no mundo.
Mas vemos toda hora o produzir para produzir mais.
Criar algo com o único objetivo de conseguir vender.
Uma banda, por exemplo, precisa seguir as exigências de sua gravadora. E nessa briga é o que verdadeiramente o artista quis passar que sai perdendo.
É você quem sai perdendo!
Somos todos nós!
Perdemos pois incentivamos o medíocre.
E do medíocre nos cercamos.
Até não existir mais nada além da mediocridade.
Nada além do ciclo vicioso da mídia.
Que nos convence do que é bom,
Para fazer com que desejemos este "bom",
Para produzir este "bom",
Para "agregar valor" em cima deste "bom",
Para que compremos este "bom",
Para lucrarem com este "bom",
Gerando dinheiro para ser investido em "formar opiniões",
Que nos dizem qual é o próximo bom a ser desejado e vendido...
E os economistas me dizem que não existe fórmula para o dinheiro infinito.
Tolos...




Postado por Ricardo Ceratti.